Com Quais Doencas Transmitidas por Mosquitos Voce Deve se Preocupar?

Os mosquitos são os animais mais mortais do planeta: transmitem doenças que causam mais de 700.000 mortes por ano em todo o mundo (OMS 2024), superando largamente qualquer outro vetor. Em Portugal, o risco de transmissão local de algumas destas doenças é crescente com a expansão do mosquito-tigre (*Aedes albopictus*) — presente em 28 concelhos em 2025 — enquanto outras (malária) são essencialmente casos importados de viajantes.

Este guia apresenta as principais doenças transmitidas por mosquitos relevantes para Portugal e viajantes, com foco em sintomas, risco atual, prevenção e tratamento — com dados oficiais da DGS, OMS, ECDC e CDC.

### Panorama global: o impacto das doenças transmitidas por mosquitos

| Doença | Vetor principal | Distribuição | Casos anuais | Mortalidade anual |

|---------|------------------|--------------|--------------|---------------------|

| Malária | *Anopheles* | Trópicos (África subsaariana 95%) | 249 milhões (2023) | 608.000 |

| Dengue | *Aedes aegypti*, *Ae. albopictus* | Trópicos e subtrópicos | 100–400 milhões | 25.000 |

| Chikungunya | *Aedes aegypti*, *Ae. albopictus* | África, Ásia, Américas, Europa | 200.000+ (surto variável) | Rara (< 1%) |

| Zika | *Aedes aegypti*, *Ae. albopictus* | Américas, Pacífico, Ásia | Esporádica (epidemias) | Rara |

| Vírus do Nilo Ocidental | *Culex pipiens* | Europa, Américas, África, Médio Oriente | 2.000–6.000 (Europa 2018–2024) | 100–200 (Europa) |

| Febre-amarela | *Aedes aegypti*, *Haemagogus* | África subsaariana, América do Sul | 30.000–200.000 | 30.000–60.000 |

| Filariose linfática | *Culex*, *Anopheles*, *Aedes* | Trópicos (Ásia, África) | 50 milhões | Rara |

| Leishmaníase (não-mosquito; flebótomo) | *Lutzomyia*, *Phlebotomus* | Mediterrâneo, Américas, Ásia | 700.000–1 milhão | 20.000–30.000 |

### Doenças com risco em Portugal continental

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  1. Vírus do Nilo Ocidental (WNV) — risco moderado em Portugal

O que é: infeção viral transmitida pelo *Culex pipiens* (mosquito-comum noturno, presente em todo o país).

Situação em Portugal (2024–2025):

  • Casos humanos: a DGS reportou surtos esporádicos em Portugal continental, especialmente no Alentejo, Ribatejo e Algarve.
  • Reservatório: aves selvagens (migração); equinos podem ser hospedeiros acidentais.
  • Transmissão: mosquito → humano; não há transmissão humano-mosquito-humano (exceto transfusões, transplantes).

Sintomas:

  • 80% assintomática.
  • Febre do Nilo Ocidental (20%): febre, dor de cabeça, fadiga, dores musculares, erupção cutânea. Duração 3–6 dias.
  • Meningite/encefalite do Nilo Ocidental (< 1%): febre alta, rigidez do pescoço, confusão, convulsões, coma. Mortalidade 10% em formas neurológicas; sequelas em 50% dos sobreviventes.

Diagnóstico: IgM no LCR (meningite) ou soro; PCR; DGS faz vigilância anual.

Tratamento: apenas sintomático e de suporte (não há antiviral específico).

Prevenção:

  • Repelente tópico (DEET 20–35% ou icaridina 20%) ao ar livre ao amanhecer e entardecer.
  • Roupa comprida e clara.
  • Mosquiteiros em zonas rurais.
  • Eliminar água parada no jardim.
  • Vigilância de equinos (vacina disponível para cavalos).

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  1. Dengue — risco de transmissão local em zonas com mosquito-tigre

O que é: infeção viral transmitida por *Aedes aegypti* (raro em PT continental) e *Aedes albopictus* (presente em 28 concelhos em 2025).

Situação em Portugal (2025):

  • Casos importados: 200–500/ano (viajantes de Brasil, Tailândia, Indonésia, Filipinas).
  • Casos autóctones: ainda não documentados, mas risco real em zonas com presença do vetor (Lisboa, Algarve, Setúbal, Coimbra, Porto).
  • A DGS classifica a dengue como risco de saúde pública prioritário para Portugal continental.

Sintomas:

  • 75% assintomática.
  • Dengue clássica (25%): febre alta súbita, dor de cabeça retro-orbitária, dores musculares e articulares intensas ("febre quebra-ossos"), erupção cutânea, náuseas.
  • Dengue grave (5% dos sintomáticos): hemorragias, choque, falência de órgãos. Mortalidade 2–5% se não tratada.
  • Febre hemorrágica da dengue: forma grave, mais comum em reinfeção.

Diagnóstico: PCR (fase aguda), NS1 (antigénio), IgM/IgG (sorologia).

Tratamento: sintomático; paracetamol (NUNCA aspirina/AINEs pelo risco hemorrágico); hidratação; internamento em casos graves.

Prevenção:

  • Repelente tópico ao ar livre.
  • Eliminação de criadouros do mosquito-tigre (água parada).
  • Mosquiteiros tratados.
  • Vacina Qdenga (TAK-003): aprovada pela EMA em 2022; disponível em Portugal em 2024–2025 para viajantes a zonas endémicas e crianças/adolescentes em zonas de risco. Custo elevado (~100–150 € por dose, 2 doses).

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  1. Zika — risco baixo em Portugal continental

O que é: infeção viral por flavivírus, transmitida por *Aedes aegypti* e *Ae. albopictus*.

Situação em Portugal (2025):

  • Casos importados: dezenas/ano (Brasil, Cabo Verde, Polinésia).
  • Casos autóctones: nenhum documentado; risco teórico em zonas com mosquito-tigre.

Sintomas:

  • 80% assintomática.
  • Sintomas leves (quando presentes): febre moderada, erupção cutânea, conjuntivite, dores articulares, dor de cabeça.
  • Complicações graves:
  • Síndrome de Guillain-Barré (rara; 1–2 por 10.000 infetados).
  • Microcefalia fetal (se infeção durante a gravidez; risco 1–10%).

Prevenção:

  • Grávidas devem evitar viagens a zonas com surto ativo (Brasil, Cabo Verde, Polinésia).
  • Repelente tópico (DEET 20–35%) se viagem inevitável.
  • Roupa comprida, mosquiteiros.

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  1. Chikungunya — risco moderado em Portugal continental

O que é: infeção viral por alfavírus, transmitida por *Aedes aegypti* e *Ae. albopictus*.

Situação em Portugal (2025):

  • Casos importados: dezenas/ano.
  • Casos autóctones: surto documentado em Itália (2007, 2017); risco teórico em Portugal.

Sintomas:

  • Febre alta súbita, dores articulares intensas (tornozelos, joelhos, pulsos) que podem persistir meses a anos (artrite crónica).
  • Erupção cutânea, dor de cabeça, fadiga.

Tratamento: sintomático; AINEs para dor articular (após exclusão de dengue).

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  1. Febre-amarela — risco teórico em Portugal

O que é: infeção viral grave, transmitida por *Aedes aegypti* e *Haemagogus* (silvestre).

Situação em Portugal:

  • Sem casos humanos desde o século XIX (último surto no Porto em 1868).
  • Não há risco atual de transmissão local (sem reservatório humano).
  • Risco para viajantes a África tropical e América do Sul.

Sintomas:

  • 3 fases: infeção (febre, dor de cabeça) → remissão breve → infeção grave (15%) com icterícia, hemorragias, falência de órgãos. Mortalidade 20–50% na forma grave.

Prevenção:

  • Vacina (Stamaril, 17D) — obrigatória para entrada em muitos países; recomendada a viajantes a zonas endémicas.
  • Validade: vitalícia (após 2016, OMS).
  • Disponível em centros de vacinação internacional (DGS).

### Doenças com risco de importação em Portugal (para viajantes)

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  1. Malária (paludismo)

O que é: infeção por parasita *Plasmodium* (5 espécies), transmitida por *Anopheles* (mosquito noturno).

Situação em Portugal:

  • Não há transmissão local (Portugal é certificado "livre de malária" desde 1973).
  • Casos importados: 100–200/ano (viajantes a África subsaariana principalmente).

Sintomas: febre (paroxística —ciclo), arrepios, suores, dor de cabeça, dor muscular; pode complicar com anemia grave, icterícia, coma, morte.

Profilaxia (para viajantes):

  • Atovaquona-proguanil (Malarone): 1 cp/dia, 1 dia antes até 7 dias após; bem tolerado.
  • Doxiciclina: 100 mg/dia; económico; contraindicado em crianças < 8 anos e grávidas.
  • Mefloquina (Lariam): semanal; eficaz em zonas de resistência múltipla.
  • Quinino + doxiciclina: tratamento (não profilaxia).

Prevenção:

  • Repelente tópico (DEET 30–50%) + roupa comprida + mosquiteiros tratados com piretróide.

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  1. Filariose linfática (elefantíase)

O que é: infeção por helmintas (*Wuchereria bancrofti*, *Brugia malayi*) transmitidas por *Culex*, *Anopheles* e *Aedes* (espécies tropicais).

Situação em Portugal: sem casos locais; doença tropical negligenciada em África subsaariana, Sul e Sudeste Asiático, Pacífico, Américas (Brasil, Haiti, República Dominicana).

Sintomas: linfedema progressivo, elefantíase (pernas, braços, genitais), quilúria.

Eliminação global: programa OMS com mass drug administration (ivermectina, albendazol, DEC) — Portugal sem casos.

### Como o ECDC avalia o risco para a Europa (2025)

| Doença | Risco em Portugal continental | Tendência |

|---------|-------------------------------|-----------|

| WNV | Moderado (Alentejo, Ribatejo, Algarve) | ↗ em alta |

| Dengue | Baixo-Moderado (zonas com mosquito-tigre) | ↗ em alta |

| Zika | Baixo | → estável |

| Chikungunya | Baixo-Moderado | ↗ em alta (surto Itália 2023) |

| Malária | Sem risco local (apenas casos importados) | → estável |

| Febre-amarela | Sem risco | → estável |

### Como o SNS português está preparado

  • Vigilância entomológica: REVIVE (Rede de Vigilância de Vetores) — monitoriza populações de mosquitos e vetores em Portugal continental e ilhas.
  • DGS: emite normas e orientações para profissionais de saúde; recomenda rastreio em viajantes com febre pós-viagem.
  • SNS 24 (808 24 24 24): atendimento 24 h para casos suspeitos.
  • Centros de vacinação internacional: disponibilizam vacinas para viajantes (febre-amarela, dengue em alguns casos).
  • Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA): laboratório de referência para diagnóstico de doenças tropicais.

### O que fazer se viajou e tem febre ao regressar

  1. Não ignore — febre até 4 semanas após viagem a país tropical exige avaliação médica urgente.
  2. Ligue SNS 24 (808 24 24 24) ou dirija-se ao centro de saúde com informação sobre a viagem.
  3. Reporte o país visitado, duração da estadia, profilaxia feita, áreas visitadas (urbana/rural/silvática).
  4. Não tome aspirina ou ibuprofeno antes de excluir dengue (risco hemorrágico).
  5. Apresente-se em hospital se febre alta persistente, confusão, rigidez do pescoço, icterícia ou hemorragia.

### Pontos-chave a lembrar

  • Os mosquitos são o animal mais mortífero do planeta (700.000 mortes/ano).
  • Em Portugal, o vírus do Nilo Ocidental é a principal doença de transmissão local (Alentejo, Ribatejo, Algarve).
  • O mosquito-tigre (28 concelhos em 2025) traz risco crescente de dengue, zika e chikungunya (ainda sem transmissão local).
  • A malária é importada — não há risco local; viajantes para África devem fazer profilaxia.
  • Repelente tópico (DEET 20–35% ou icaridina 20%) + mosquiteiros + roupa comprida + eliminação de água parada são a base da prevenção.
  • Se tem febre após viagem a país tropical, contacte o SNS 24 imediatamente.