Por Que os Mosquitos Picam Algumas Pessoas Mais Que Outras?

Algumas pessoas são "ímãs de mosquitos" — atraem picadas onde outras, ao lado, passam despercebidas. Esta perceção comum tem base científica sólida: estudos publicados em revistas como *Nature*, *Journal of Insect Science* e *PLOS ONE* mostram que os mosquitos têm preferências reais e mensuráveis por determinados hospedeiros humanos, baseadas em fatores como grupo sanguíneo, composição da pele, CO₂ exalado, calor corporal, suor e até da dieta.

Este guia explica a ciência por trás da atração dos mosquitos — e o que pode fazer para reduzir a sua "atratividade" pessoal, com base na evidência atual (publicações da OMS, CDC, revisão sistemática Cochrane e estudos da Universidade de Wageningen, referência mundial em entomologia).

### Porque é que os mosquitos picam humanos

Apenas as fêmeas de mosquito picam (os machos alimentam-se de néctar). A fêmea precisa de sangue para desenvolver os ovos — uma refeição de sangue é essencial à reprodução.

A fêmea localiza o hospedeiro humano através de múltiplos sinais químicos, térmicos e visuais que o nosso corpo emite constantemente:

  1. Dióxido de carbono (CO₂): exalado na respiração; o principal atrativo à distância (raio de 30–50 m).
  2. Calor corporal: radiação infravermelha; o segundo sinal à distância média (5–10 m).
  3. Compostos voláteis da pele: mais de 300 substâncias odoríferas (ácido láctico, ácido úrico, amónia, ácidos gordos, etc.).
  4. Suor: componentes (lactic acid, ammonia) e bactérias que metabolizam o suor.
  5. Vapor de água: libertado pela pele e respiração.
  6. Sinais visuais: contraste (roupa escura sobre fundo claro), movimento.

O mosquito integra todos estes sinais para decidir onde pousar e picar. Quanto mais sinais a pessoa emite, mais atrativa é.

### Fator 1: Grupo sanguíneo (o mais estudado)

O grupo sanguíneo é um dos fatores genéticos mais determinantes da atratividade aos mosquitos, especialmente ao *Aedes albopictus* (mosquito-tigre) e ao *Aedes aegypti*.

#### O que diz a ciência

Um estudo clássico de 1972 (Wood e Duhl) e confirmado por estudos posteriores (2010, 2012, 2018) mostrou:

  • Pessoas do grupo O são atraídas 1,5 a 2 vezes mais que pessoas do grupo A.
  • Pessoas do grupo B têm atratividade intermédia.
  • Pessoas do grupo A são as menos atraídas (cerca de 50% das picadas vs. grupo O).

#### Porque acontece

A razão está nos antigénios secretados na pele, saliva, suor e outros fluidos. ~85% das pessoas secretam antigénios do grupo sanguíneo (são "secretoras"); 15% não. Entre os secretores, o grupo O segrega mais antigénios que o grupo A — e o mosquito consegue detetar esses compostos.

Conclusão: se é do grupo O, prepare-se: é geneticamente mais atrativo para mosquitos. Use repelente tópico com mais frequência.

### Fator 2: Bactérias da pele (o microbioma cutâneo)

Estudos recentes (2011, 2018) mostraram que a comunidade de bactérias que vive na nossa pele é um fator determinante.

  • Pessoas com mais *Staphylococcus* e *Corynebacterium* (e menos diversidade bacteriana) atraem mais mosquitos *Aedes aegypti*.
  • Pessoas com microbioma mais diverso atraem menos mosquitos.
  • As bactérias metabolizam o suor e produzem compostos voláteis (especialmente ácido láctico e amónia) que são os principais atrativos.

Implicações práticas:

  • Duchar imediatamente após o exercício (reduz o suor e as bactérias em atividade).
  • Usar roupa limpa (roupa usada liberta compostos voláteis do suor).
  • Probióticos tópicos (em investigação) podem vir a alterar o microbioma cutâneo para reduzir a atratividade.

### Fator 3: CO₂ exalado e metabolismo

O CO₂ é o sinal de longa distância dos mosquitos. Pessoas que:

  • Exalam mais CO₂ (adultos maiores, homens, pessoas em esforço físico, grávidas) atraem mais mosquitos.
  • Taquicardia, hiperventilação, exercício físico aumentam a produção de CO₂ e calor corporal.

#### Gravidez: atratividade muito elevada

Estudos mostram que grávidas atraem 2x mais mosquitos do que mulheres não-grávidas. Razões:

  • Exalam 20–30% mais CO₂ (metabolismo elevado).
  • Têm temperatura corporal 0,5–1 °C superior.
  • Volume sanguíneo aumentado e circulação periférica.

Implicação: grávidas em zonas de malária, dengue ou zika devem usar repelente DEET 20–35% e mosquiteiros tratados (recomendação OMS e CDC).

### Fator 4: Calor corporal e humidade

  • Temperatura corporal elevada (febre, exercício, calor ambiente): maior emissão de infravermelhos.
  • Pele húmida (suor): o vapor de água é um atrativo de média distância.
  • Vestuário escuro retém mais calor e humidade.

### Fator 5: Composição do suor

O suor humano contém mais de 300 compostos diferentes, com concentrações variáveis:

  • Ácido láctico: o atrativo mais potente (presente em maior quantidade após exercício).
  • Amónia: outro forte atrativo.
  • Ácidos gordos voláteis: produzidos pelas bactérias da pele.
  • Ureia, ácido úrico, aminoácidos: atrativos secundários.

O que aumenta a concentração destes compostos:

  • Exercício físico (até 30 min depois).
  • Dieta rica em proteínas ou álcool (álcool aumenta a temperatura corporal e a sudorese).
  • Stress e ansiedade (sudorese apócrina).
  • Alimentação rica em potássio (banana, abacate): não comprovado; apenas estudos fracos.

### Fator 6: Cor da roupa

Os mosquitos usam sinais visuais complementares aos químicos. Preferem:

  • Cores escuras (preto, azul-marinho, vermelho escuro): maior contraste e absorção de calor.
  • Cores claras (branco, bege, amarelo claro): menos atrativas visualmente.

Num estudo de 2022 (Universidade de Washington), o contraste de cor após deteção do CO₂ foi o principal determinante da decisão de aproximação: a temperatura da cor (mais quente = mais atrativa) importa mais que o brilho.

### Fator 7: Genética individual

Estudos com gémeos (monozigóticos vs. dizigóticos) sugerem que a atratividade aos mosquitos tem componente hereditário significativo:

  • Gémeos monozigóticos (idênticos) são atraidores de forma mais semelhante que gémeos dizigóticos.
  • O componente genético explica cerca de 30–50% da variação na atratividade individual.
  • Os genes envolvidos influenciam o grupo sanguíneo, o microbioma cutâneo, a composição do suor e o metabolismo basal.

### Fator 8: Dieta e álcool

  • Álcool (especialmente cerveja): vários estudos (2010, 2012) mostram aumento da atratividade após consumo. Causas: aumento da temperatura corporal, alteração do suor, exalação de etanol volátil.
  • Alho oral: mito popular; sem efeito comprovado.
  • Vitamina B1 (tiamina): ineficaz; sem suporte em ensaios clínicos controlados.
  • Dieta vegetariana/vegan: sugere-se redução da atratividade (menos ácido úrico), mas evidência fraca.

### Fator 9: Idade e sexo

  • Adultos atraem mais que crianças (maior área corporal, mais CO₂, mais calor).
  • Homens ligeiramente mais atrativos que mulheres (maior massa muscular, mais CO₂ basal, mais suor).
  • Pessoas obesas atraem mais (mais superfície, mais calor, mais CO₂).
  • Idosos podem atrair mais ou menos dependendo do estado de saúde e mobilidade.

### Fator 10: Estado fisiológico

  • Mulheres em ovulação: aumento ligeiro da atratividade (estrogénios alteram compostos da pele).
  • Pessoas com febre: muito atrativas (mais CO₂, mais calor).
  • Doentes hepáticos (especialmente com hiperamonémia): muito atrativos (mais amónia no suor).

### Tabela-resumo: ordem de atratividade

| Fator | Efeito | Magnitude |

|-------|--------|-----------|

| Grupo sanguíneo O | +50–100% vs. grupo A | Forte |

| Gravidez | +100% (2x) | Muito forte |

| CO₂ exalado (esforço) | +30–50% | Forte |

| Bactérias da pele (pouca diversidade) | +20–40% | Moderado |

| Suor (após exercício) | +30–50% | Forte |

| Álcool (especialmente cerveja) | +30–50% | Moderado |

| Roupa escura | +20–30% | Moderado |

| Temperatura elevada | +20–30% | Moderado |

| Cheiro corporal intenso (alho, curry, queijo forte) | +10–20% | Ligeiro |

### O que pode fazer para reduzir a sua atratividade

  1. Usar repelente tópico eficaz (DEET 20–35%, icaridina 20%, IR3535 ou PMD) — a medida mais eficaz.
  2. Tomar duche antes de dormir (reduz o suor e as bactérias ativas).
  3. Vestir roupa clara e larga (reduz contraste, calor e humidade).
  4. Evitar exercício ao ar livre ao amanhecer e entardecer (picos de atividade do *Culex*).
  5. Limitar o consumo de álcool em zonas de risco (especialmente cerveja).
  6. Instalar ventoinhas em esplanadas e zonas exteriores (movimento de ar dispersa o CO₂ e dificulta o voo).
  7. Mosquiteiros tratados na cama (especialmente em zonas tropicais).
  8. Manter o jardim livre de água parada (eliminar criadouros).
  9. Ar condicionado (reduz a temperatura e humidade — menos atrativo para mosquitos).
  10. Controlo de pragas profissional (DGS/ANPC) em zonas de elevada densidade de mosquitos.

### Pontos-chave a lembrar

  • A atratividade aos mosquitos é multifatorial: grupo sanguíneo, microbioma da pele, CO₂, calor, suor, roupa, dieta, estado fisiológico.
  • O grupo O é o mais atrativo (50–100% mais que o grupo A); a gravidez duplica a atratividade.
  • O microbioma cutâneo (composição de bactérias) é um dos fatores mais estudados atualmente — diversidade bacteriana baixa = maior atratividade.
  • Repelentes tópicos (DEET, icaridina, IR3535, PMD) são a medida mais eficaz para neutralizar a atratividade individual.
  • Vitamina B1, alho oral, citronela oral e ultrassons NÃO funcionam — não gaste dinheiro.